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Postagens

Qual o sentido da vida?

"Viver é separarmos do que fomos para nos adentrarmos no que vamos ser no futuro, futuro sempre estranho"
 Gaston Bachelard
Quanto tempo longe deste espaço! Nesse tempo de distanciamento tivemos um curso sobre a escrita que rendeu muitas trocas e histórias. Um estudo da escrita como criação e trabalho. Um olhar para a palavra, matéria-prima da escrita, geradora de ideias. Segundo Eduardo Galeano, "a gente escreve contra a própria solidão e dos outros", pois escrita é comunhão. Isso vem ao encontro desse espaço que desde o princípio desejou criar ponte entre os leitores e agora busca edificá-la por meio da escrita. Essa proximidade com a palavra, vem de minha primeira formação: professora de Língua Portuguesa. O desvendamento do universo da palavra sempre me intrigou e impulsionou para a aventura literária. Exerço esse trabalho há mais de 20 anos e não me canso das palavras, nem dos meninos e meninas que vejo descobrindo esse universo linguístico de que somos composto…
Postagens recentes

´Freud lê... Ondjaki: "A vida comum"

Quanto tempo ausente e longe da escrita, quase 2 meses, os dias se encheram de afazeres e acabamos deixando este espaço de diálogo em pausa, como se fosse possível, parar de puxar o fio que conduz nossa vida e voltar lá, onde deixamos um nó para desatar. E que nó ficou aqui para desatar! Falamos nos outros textos de sonhos, desejos, do que nos move e agora só queríamos falar da vida. Que difícil escolher um texto específico quando se quer falar do dia a dia, da vida que se constrói a cada pulsão. E, em meio a tantas histórias, voltei àquelas sobre a infância e o olhar da criança, afinal "a vida acontece muito de repente˜, como afirma Ondjaki no conto "O último carnaval da Vitória", do livro Os da minha rua. Essa ideia do de repente da vida junto com vários acontecimentos recentes nos fez pensar no que é a vida e, nesse preâmbulo, encontrar um pouco desse sentido na voz do menino narrador de Ondjaki nos trouxe um certo alento: "A vida às vezes é como um jogo brincado…

Freud lê… Bartolomeu Campos Queirós: "Por parte de pai"

Desde que começamos este espaço temos falado de memórias, de sentimentos vivenciados a partir delas ou apesar delas. Hoje quero retomar a figura do avô presente em outra obra de Bartolomeu Campos Queirós, o avô paterno, por quem o menino-narrador tem tanta admiração e afeto. O avô da obra “Por partede pai” é quem ensina o narrador a registrar o mundo por meio da escrita. Era a partir das histórias escritas pelo avô que o menino ia relendo a vizinhança, os vizinhos, os pequenos e grandes acontecimentos que eram registrados pelo avô nas paredes da casa, tudo o que acontecia na pequena vila onde moravam, como uma necessidade de imobilizar a vida:
"Usava todas as janelas da casa, apreciando os quatro cantos do mundo, sempre surpreso, descobrindo uma nova cor, um novo vento, uma nova lembrança. Havia tanto mundo para ver, dava até preguiça, diz ele. Uma coisa meu avô sabia fazer: olhar. Passava horas reparando o mundo. Às vezes encarava um ponto no vazio e só desgrudava quando transform…

Freud lê… Bartolomeu Campos Queirós: "O olho de vidro de meu avô"

Freud lê… "O olho de vidro de meu avô" As palavras guardam um universo inteiro dentro delas. Hoje, especialmente, quero falar de algumas histórias que apresentam os avós como personagens centrais. Freud afirmava que a "construção subjetiva de um indivíduo está invariavelmente envolvida com algo mais, como um modelo, um objeto, um oponente, um auxiliar, de maneira que, desde o princípio das relações mais primitivas da infância, poderíamos dizer que a psicologia individual é também psicologia social" (ZANETTI, 2009). Desde então, o conceito de transmissão psíquica incorporou-se à Psicanálise. Nesse sentido, os avós são figuras fundamentais quando pensamos na construção da subjetividade do indivíduo. O escritor Bartolomeu Campos Queirós nos traz em algumas de suas obras a figura de seus avós materno e paterno. Falaremos inicialmente sobre a obra "O olho de vidro do meu avô", na qual  o narrador em primeira pessoa nos apresenta seu avô materno. Logo no início d…

Carrascoza: "Aos 7 e aos 40", Parte 2, Inevitável Tempo

Quando iniciamos este espaço com a reflexão sobre o livro “Aos 7 e aos 40”, de João Carrascoza, parece ter faltado a relação que tanto desejamos: pensar a semelhança entre a narrativa do autor e a nossa. O que se passa no intervalo de tempo entre a infância e a fase adulta? Por que esse livro me causou tanto impacto como eu afirmei anteriormente? Por que meu  desejo de abraçar o personagem ao terminar de ler o livro? A resposta, que não havia sido dada claramente no primeiro texto, está aqui: foi sua proximidade comigo! Estou nesta faixa etária "aos 40" e isso mexeu bastante comigo: uma história que emociona e dói. Foi isso que senti quando terminei, como é doído o envelhecimento e, principalmente, o balanço da vida. A passagem do tempo nos toca sem percebermos exatamente, quando nos damos conta, estamos lá aos 40. Como ocorre essa passagem tão sutil e tão precisa? Essa obra mostra-nos quanto de nós se construiu na infância e nos acompanha ao longo da vida, sejam os medos, s…

Saramago: "O conto da Ilha Desconhecida", parte 2 - A viagem

Maduro pelos dias, vi-me em ilha, portanto. Como conhecer as coisas senão sendo-as? Como conhecer o mar senão morando-o? Jorge de Lima  :

E quando a vida que estamos levando nos leva a ir atrás de um sonho? Qual o lugar do sonho em nosso dia a dia? Ele se mistura com demandas que vamos nos colocando ou damos a ele outro lugar, o lugar do futuro: "quando estiver de férias farei isso..." ou "quando me aposentar começarei a fazer isso''. Quantos de nós vamos empurrando para frente um olhar para dentro de nós, para a escuta de nossos sonhos. Quantos imperativos se sobrepõem ao que queremos, a olhar o que nos falta para começar essa busca. O que nos falta em muitos casos não nos coloca em ação, mas põe nos a preencher-nos com demandas ordinárias que enchem nossos dias de imperativos "é preciso fazer isso" ou "é preciso ter aquilo". O exercício da escuta de nossos desejos pode nos auxiliar a chegar ao que buscamos de fato, como vimos no último texto, nos…

Saramago: "O Conto da Ilha Desconhecida"

"Somos seres desejantes destinados à incompletude, e é isso que nos faz caminhar"  Jacques Lacan
Esse texto foi bem difícil de nascer, foram dias para que eu encontrasse o tom adequado para essa conversa. E depois de uma semana mexendo, tirando e pondo palavras aqui, hoje numa conversa com uma amiga querida, percebi por que tanta resistência para enfrentar essa ilha desconhecida de José Saramago. Porque o que ocorre neste conto acontece diariamente em sessões de terapia ou mesmo numa conversa entre amigos: a busca por si mesmo. Afinal quem sou eu? Buscar descobrir-se parece ser uma das questões fundamentais dos seres humanos. A sensação de incompletude é o que nos move frente a essa angústia que nos coloca a olhar para vida a perguntar: quem sou eu nessa vida que vivo?

Quantos de nós nos colocamos a pensar se a vida que estamos vivendo foi de fato escolhida por nós ou corresponde a algo inicialmente imaginado ou mesmo esperado por nós culturalmente. Quem somos nós frente às es…