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Saramago: "O conto da Ilha Desconhecida", parte 2 - A viagem



Maduro pelos dias, vi-me em ilha,
portanto.
Como conhecer as coisas senão sendo-as?
Como conhecer o mar senão morando-o?
Jorge de Lima
 :


E quando a vida que estamos levando nos leva a ir atrás de um sonho? Qual o lugar do sonho em nosso dia a dia? Ele se mistura com demandas que vamos nos colocando ou damos a ele outro lugar, o lugar do futuro: "quando estiver de férias farei isso..." ou "quando me aposentar começarei a fazer isso''. Quantos de nós vamos empurrando para frente um olhar para dentro de nós, para a escuta de nossos sonhos. Quantos imperativos se sobrepõem ao que queremos, a olhar o que nos falta para começar essa busca.
O que nos falta em muitos casos não nos coloca em ação, mas põe nos a preencher-nos com demandas ordinárias que enchem nossos dias de imperativos "é preciso fazer isso" ou "é preciso ter aquilo". O exercício da escuta de nossos desejos pode nos auxiliar a chegar ao que buscamos de fato, como vimos no último texto, nosso personagem buscava um "barco", um elemento concreto que o colocaria numa viagem para a ilha desconhecida.
Depois de o rei conceder-lhe o pedido, ele vai ao encontro do capitão que lhe daria o barco. A mulher da limpeza sai pela porta das decisões atrás dele, pois achou boa a ideia de ir em busca da ilha desconhecida. A mulher que abria a porta para os outros decide abrir a porta para si mesma.
Ao encontrar o capitão, o homem entrega o cartão com o despacho do rei, este havia pedido que o capitão lhe entregasse um barco que navegasse bem e fosse seguro. Vemos aqui o desejo de sentir-se seguro para uma travessia desconhecida. No diálogo que se estabelece entre o homem o capitão, este faz a pergunta essencial ao homem: "Sabes navegar" .  E o homem pede: "Dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim…". Um barco que o respeite? Que valide sua busca? Novamente, vemos este homem tornar-se navegador pelo domínio da palavra.
Barco escolhido, a mulher da limpeza junta-se ao homem para segui-lo em sua viagem. Esta mulher torna-se parceira desta viagem. Ela ajuda o homem no reconhecimento dos desejos dele, ela é o outro que exercita nossa alteridade, ou seja, ela é  o outro valida o que desejamos, se tivermos tempo e disponibilidade para ouvi-lo. A busca pelo autoconhecimento pode parecer, a princípio, algo individual, uma experiência singular, e é, mas é também uma experiência universal. Nesse sentido, a obra de Saramago pode levar o leitor a experienciar e reconhecer-se nesse homem.
Quando se afirma que a psicanálise pode ser entendida como "a cura pela palavra", coloca-se como questão o falar sobre si e quanto a própria escuta auxilia no entendimento de nossas buscas.


"Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, [...], E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhe eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tem certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive e terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, [...] e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa." (SARAMAGO, 1998, p.40-41)

A mulher ajuda-o na afirmação daquilo que deseja: "se não saímos de nós próprios, queres, queres tu dizer, Não é a mesma coisa". Esta correção retoma a ideia de que buscar a si mesmo exige um deslocamento, que pode ser físico e também imaginário, pois coloca o homem e a mulher ao mar ao encontro desse lugar em que descobriremos a "nós próprios", como ela afirmou.
Quando o homem retornou trouxe com ele a comida. Eles conversam e comem, depois  recolhem-se para descansar, ele deseja a ela bons sonhos, mas é ele mesmo que sonha. Aqui consciente e inconsciente se encontram: ele põe a caravela a navegar, sem tripulação, e, no sonho, ela está povoada de marinheiros e suas mulheres, os animais e toda flora.
Mas, no decorrer do sonho, os homens decidiram ir embora, junto com suas mulheres, levam os animais. Restaram as flores, as árvores, cujas raízes penetraram na proa. Ao acordar, homem e mulher estavam unidos, abraçados, momento em que os desejos se fundiram: "a busca por nós mesmos". Eles se levantaram e pintaram o nome que faltava ao barco : "Ilha desconhecida". Que se pode pensar sobre esse trecho? Que a experiência do sonho suscita o consciente, traz para a realidade o desejado, novamente isso passa pela linguagem.

Histórias que falam de autoconhecimento são comuns, então o que diferencia esta viagem de José Saramago? Este narrador (criado pelo escritor português) que acompanha este homem comum vai nos inserindo no campo da relação com o outro, nessa relação de alteridade, que reconhece e, às vezes, duvida deste homem, cujo sonho era encontrar a tal ilha. Nesse ponto literatura e psicanálise se entrelaçam: ambas preveem esse encontro do "eu" e o "outro" através das narrativas, sejam as nossas ou as ficcionais, singulares e/ou universais, nas quais nos vemos representados e nos reconhecemos como seres faltantes em busca de compreender nossa condição humana.

...

Texto: Gláucia Gotardo
Ilustração: Somnia Carvalho.

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